O que é vigorexia ou a compulsão por exercícios







Quando as top models começaram a aparecer cada vez mais magras e sem formas, por exigência dos estilistas, o mundo descobriu o que era a anorexia, o desejo incontrolável de ser magro às raias da neurose, onde a pessoa passa a não se alimentar mais e nunca está contente com seu corpo.

De sete anos para cá, um novo distúrbio psicológico foi detectado, que possui as mesmas raízes da anorexia (pressão social e descontentamento com o próprio corpo), mas com um comportamento diferente das modelos, ou seja, ao invés de não comer, a pessoa se torna uma fanática por exercícios físicos.
A isso, o médico Harrison Graham Pope Jr, professor de psicologia em Harvard (quem primeiro diagnosticou esse TOC (transtorno obsessivo compulsivo), e chamou de Vigorexia ou Síndrome de Adônis.

Para entender melhor esse distúrbio, seus sintomas e patologia, entrevistamos o médico Arnaldo José Hernandez, professor associado da Faculdade de Medicina da USP e diretor da Sociedade brasileira de medicina do exercício e do esporte.

Terra: A vigorexia é um distúrbio físico, alimentar, psicológico ou concentra esses três pontos ao mesmo tempo?
Arnaldo Hernandez: A vigorexia é um distúrbio psiquiátrico de base, que leva a um distúrbio alimentar porque a pessoa tem uma visão totalmente equivocada, ou seja, o desejo que seu corpo seja de um jeito que ela não conseguiu ainda perceber. 
Na maioria dos casos, a vigorexia está associada ao fisiculturismo, com as pessoas que gostam de levantar peso exageradamente e que passam quatro horas numa academia malhando, mas também pode ser, em uma outra expressão, o camarada que corre muito, por exemplo e sempre acha que precisa correr mais. A pessoa, quando fica sem exercício, fica doido, briga com a família, com a parceira e sofre uma síndrome de abstinência.

Terra: Como conseguir identificar que isso é um distúrbio ao invés de uma paixão por malhar ou praticar esportes? 
AH: É difícil, especialmente em casa. Com certeza a anorexia é mais fácil porque você olha um magrelo ou magrela e vê que a pessoa está nitidamente doente. Como todo distúrbio de comportamento, a principal forma de você identificar isso é verificar se a pessoa, o fortão ou a fortona, muda o padrão de comportamento. Ele começa a trocar o estudo, o descanso, o trabalho, o lazer e os compromissos porque acha que precisa treinar e pensa que não pode parar, se olha no espelho constantemente e passa a usar anabolizantes.

Terra: Então anabólicos estão intimamente ligados à vigorexia?
AH: Não obrigatoriamente. Não é porque uma pessoa usa anabolizantes que está sofrendo de vigorexia, mas existe uma associação clara, pois provavelmente quem sofre de vigorexia usa esses produtos ou qualquer recurso ergogênico possível, com frequência. E o perigo está nos recursos vendidos em vestiários de academia, porque são drogas de comércio ilegal.

Terra: Além dos aspectos comportamentais, em que mais a vigorexia prejudica o atleta?
AH: Quando você faz exercícios em excesso, mesmo que não use drogas, podem ocorrer lesões mais frequentemente, embora seja um risco de qualquer atividade física. Agora, para se ter uma massa muscular muito grande você é obrigado a fazer uma dieta hipercalórica e hiperproteica. E com isso você tem uma chance grande de aumentar o colesterol, ter distúrbios da glicemia, pode apresentar um pré-diabetes e elevar as triglicérides. Tudo isso sem as drogas anabolizantes. Com elas, os efeitos se multiplicam.

Terra: E como a pessoa pode, por ela mesma, saber se sofre de vigorexia?
AH: É difícil você saber o limite exato entre o distúrbio, a paixão ou do empenho e da perfeição, com a vigorexia. Você só vai conseguir saber mesmo quando perceber que a coisa está extrapolando de um lado ou do outro, e pede ajuda específica de um profissional, no caso um psiquiatra. O médico vai identificar se esse cara tem um distúrbio de comportamento, e existem testes que são aplicados para traçar o perfil psicológico do indivíduo.

Terra: E o profissional da academia não deveria alertar o aluno?
AH: Sim, deveria ser o profissional de educação física que deveria falar para o aluno que ele está passando do nível do aceitável, mas com frequência esses profissionais já sofrem disso. Esse fenômeno da vigorexia, que antes não era conhecido e agora está mais exposto, é mais prevalecente do que se pensa. O índice de pessoas que sofrem deste mal é muito alto. E o meio propício para isso é a academia, do mesmo jeito que a anorexia está relacionada às agências de modelos.

Terra: Então aí pode residir um problema, já que o profissional não é a pessoa que alerta para o problema?
AH: Vigorexia é algo relativamente novo. Começou a ter maior divulgação há menos de cinco anos e ainda não existe essa clareza que pode ser um distúrbio. Talvez pela menor gravidade dela, pelo meio em que ela está possuir muitos profissionais com esse problema e pelo fato do desconhecimento claro do problema pelos profissionais, as pessoas não estão tão atentas a ele. E mais, existem sites incentivando as pessoas a serem fortes, malhadas e vendendo isso como saúde, e não é saudável. Da mesma forma que esporte de desempenho, de competição, não é saúde, é opção.

Terra: E o tratamento da vigorexia é com drogas e terapia?
AH: Depende da gravidade ou da intensidade e do diagnóstico correto do que essa pessoa tem, examinando se existem outras causas que estão contribuindo para esse distúrbio , ou se ele é isolado. Não posso entrar em detalhes porque esse tipo de tratamento é feito por um psiquiatra e sou médico do esporte, mas é o mesmo tipo de processo para os casos de TOC, que muitas vezes tem que usar drogas para controlar a ansiedade e obviamente terapia de apoio. 

A entrevista foi retirado do site Terra e colocado aqui integralmente.


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