Esporte e fibromialgia








É absolutamente necessária a atividade física para quem sofre de fibromialgia. O que se exige é um cuidado especial, porque o limiar de dor é muito reduzido. Por exemplo, conheço um caso de um médico que recomendou caminhadas diárias de uma hora para uma paciente com fibromialgia. Ela só conseguiu voltar a caminhar quase um mês depois, tamanha a dor que sentiu como resultado dessa caminhada de uma hora.

Quase todo paciente de fibromialgia conhece mais sobre sua doença do que o profissional de saúde que o atende, cada um sabe o limite que não deve exceder.

Aliás, tenho muitos pacientes que sabem mais sobre suas doenças do que eu. A pessoa sofre aquela dor há trinta, quarenta anos; passaram por dezenas de tratamentos, fazem pesquisas constantes, muito facilitadas hoje em dia pela Internet. São "pós-graduadas" na própria doença e eu aprendo com esses pacientes, vou consultar as fontes que eles me indicam e descubro muita coisa que eu não sabia. O perfil dos pacientes mudou muito nos últimos anos. Eles lêem muito, pesquisam, fazem muitas perguntas.

Para fibromialgia, é uma questão de testar os limites bem devagar. Experimentar, começando com uma caminhada de cinco minutos. Se não doer, experimentar dez minutos na próxima vez, até sentir que atingiu o limite. Caso não se dê bem com a caminhada, experimentar hidroginástica, ou outra atividade. Mas é imprescindível que esse paciente procure se adaptar a uma atividade física.

É muito complicado prescrever uma atividade física para fibromialgia. É uma dor "global", o paciente sente dor no corpo inteiro. Então, a avaliação física que a gente faz normalmente para prescrever exercícios não é aplicável diretamente a esses pacientes. A avaliação física para fibromialgia é mais para verificar o grau da doença, baseando-se no feedback do paciente. O paciente faz o exercício, um ou dois dias depois perguntamos se está tudo bem. Se ele disser que sentiu muita dor, a gente experimenta algo mais leve. O que se deve fazer é a montagem gradativa de um protocolo de exercícios personalizado. Porque, se eu tiver dois pacientes com o mesmo grau de fibromialgia, um deles pode se adaptar bem a um exercício e, o outro, sentir muita dor com o mesmo exercício.

Mas, repito a atividade física é imprescindível para os pacientes com fibromialgia. Porque se o paciente parar de se movimentar, ele vai atingir um nível de dor em que não vai conseguir realizar mais nenhum movimento. No limite, vai parar numa cadeira-de-rodas.

No início da atividade física, durante o período de adaptação, o paciente de fibromialgia vai sentir dor. O início é muito complicado, muito difícil, mas é preciso persistir, pois com o progresso do tratamento, ele vai conseguir realizar vários movimentos sem sentir dor.

O lado dramático da fibromialgia é que não há um exame que permita avaliá-la com precisão ou até mesmo comprovar que ela existe! Tudo o que nós temos para trabalhar é o relato do paciente. Há muita dificuldade no diagnóstico. Inclusive, embora pareça ter origem neurológica, essa doença não responde a medicamentos convencionais, nem a analgésicos fortíssimos. Tanto que a medicação mais receitada para fibromialgia são os antidepressivos.

Até porque, é difícil não se sentir deprimido quando você sente dor 24 horas por dia. A doença em si já é deprimente, chega um momento em que a pessoa sente mesmo vontade de não fazer mais nada e se entregar. Tenho pacientes que sofrem muito porque não conseguem pegar os filhos ou netos no colo sem sentir dores fortíssimas. Veja que, no caso, o sofrimento maior não está nem na dor, mas na conseqüência da dor. O antidepressivo ajuda a pessoa a não se render e a persistir na atividade física, tentar realizar movimentos. A atividade física também tem esse efeito psicológico, de ajudar o paciente a não se render, a não se entregar à doença.


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