Lesões que mais acometem o atleta de voleibol de praia masculino de alto nível







O Voleibol nasceu aproximadamente em 1895, numa das Associações Cristãs de Moços do Estado de Massachussets nos Estados Unidos da América, criado pelo recreador do local chamado Willian Morgan.

Já o Voleibol de Praia apareceu na década de 20 nas praias da Califórnia e chegou ao Brasil aproximadamente nos anos 50. Hoje o Voleibol de Praia é um esporte olímpico e é bastante organizado com um Circuito brasileiro e um Circuito mundial. Devido ao potencial rigor do jogo e a intensa carga de treinamentos,lesões agudas e crônicas são esperadas. Além da reabilitação das lesões, no esporte de alto-nível, segundo FONTANA (1999), o fisioterapeuta deve atuar na prevenção das lesões e na potencialização máxima das funções do atleta para manter o desempenho do atleta no seu auge. Por isso modalidades como a crioterapia, os alongamentos além da observação de desequilíbrios do sistema osteo-mio-articular e erros biomecânicos dos gestos desportivos, são recursos bastante importantes para evitar todo e qualquer tipo de lesão. Segundo PERA E BRINNER (1996), verificar e avaliar a freqüência de lesões

é o primeiro passo num objetivo de reduzir as lesões nos atletas. E segundo BRINNER e BENJAMIN (1999), a familiarização com as lesões mais comuns no voleibol podem facilitar o diagnóstico, tratamento e reabilitação, além de promover a prevenção.

OBJETIVOS

Este estudo teve como objetivo principal verificar quais as lesões que mais acometem o atleta de voleibol de praia masculino de alto-nível. Além deste objetivo este estudo também visionou verificar o fundamento que gerou as lesões e o mecanismo de trauma, bem como observar se o atleta realiza algumas modalidades preventivas e se ele realizou tratamento (se realizou, qual?) para a lesão descrita.

METODOLOGIA

Tipo de Pesquisa

Esta pesquisa, segundo RUDIO (1986), se caracterizou de natureza descritiva de campo, pois procurou descobrir os fenômenos e causas, descrevendo-os, classificando-os e interpretando-os. Nela os atletas de voleibol de praia masculino de alto-nível, relataram suas experiências com lesões durante a Temporada 2000, além do mecanismo de lesão, e verificação de conhecimentos sobre prevenção e reabilitação.

População e Amostra

A população constituiu-se dos atletas de voleibol de praia masculino profissionais participantes da Etapa Catarinense do Circuito Banco do Brasil de Vôlei de Praia, realizada entre os dias 22 e 26 de novembro de 2000, em Balneário Camboriú.

A amostra foi do tipo não-probabilística acidental, segundo RUDIO (1986), pois os atletas foram entrevistados ao acaso, no período pré e pós-jogo.

Para a realização da pesquisa foi entregue um ofício para o responsável pela organização da etapa, o qual autorizou a utilização dos dados. Quanto à amostra obteve-se um total de 32 atletas profissionais de voleibol de praia entrevistados.

Coleta de Dados

Instrumentação

O instrumento utilizado para obter as informações necessárias à realização da pesquisa foi um questionário com variáveis fechadas e abertas à atletas que tiveram, ou não, lesões durante a temporada, para obter-se o máximo de informações de ambos.

Procedimento

Cada atleta submetido a pesquisa foi devidamente entrevistado, onde o mesmo respondia oralmente ao pesquisador, que preenchia os dados no questionário.

Tratamento Estatístico

Para atender os objetivos da pesquisa, após a tabulação dos dados, estes foram submetidos à estatística descritiva mediante cálculo de freqüência simples, média, desvio padrão e percentual.

ANÁLISE DOS DADOS E DISCUSSÂO DOS RESULTADOS

Dentro desta pesquisa observamos um número bastante alto de atletas lesionados. Dos 32 atletas pesquisados, 22 apresentaram problemas com lesões durante a temporada 2000, isso equivale a 68,75% dos entrevistados. Consideramos lesão, todo e qualquer problema ortopédico diagnosticado pela comissão médica, que prejudique ou afaste o atleta dos jogos ou treinamentos (PERA e BRINNER, 1996).

Outro dado importante foi a diferenciação das lesões entre insidiosas e agudas, o número de lesões insidiosas chega a 18 o que equivale à 81,8% das lesões reportadas na pesquisa, e o de lesões agudas foi de 4, ou seja, 18,2% das lesões. Este alto índice de lesões insidiosas é perfeitamente normal segundo BRINNER e BENJAMIN (1999), que relatam que estas lesões geralmente variam de aproximadamente 50% à cerca de 80% do total das lesões dentro do voleibol de alto-nível. O local que apresentou maior número de lesões insidiosas dentro de nossa pesquisa foi a articulação do joelho com 8 lesões ao todo, seguido da região lombar com 6 lesões, e da articulação do ombro também com 6 lesões. O cotovelo apareceu com apenas uma lesão. Verificando mais especificamente as lesões observamos que as lombalgias de qualquer origem obtiveram o primeiro lugar em número de referências com 6 casos, seguidas do joelho do saltador ou "jumper´s knee" com 5 casos, e da lesão tendinosa do manguito rotador com 4 casos.

Essa maioria de lesões no joelho segundo BRINNER e BENJAMIN (1999), se dá porque a atividade de salto é praticamente integral dentro do voleibol, fazendo com que o joelho seja a articulação que possua uma sobrecarga maior, e por conseqüência sendo o maior local de lesões e degenerações, tanto para a subida dos saltos, quanto para o impacto da queda. As lesões no joelho no voleibol de praia geralmente incomodam o atleta quando a etapa do campeonato é jogada em quadras inadequadas, com o piso rígido, o que promove a recidiva de lesões antigas. O que prova isso é mais um número obtido na nossa pesquisa, que afirma que dos atletas com problemas na articulação no joelho que vieram do voleibol de quadra, 80% apresentam lesões que os acompanham desde aquela época.

As lesões na região lombar têm basicamente a mesma etiologia das lesões do joelho, geralmente, também aparecem quando o atleta se depara com quadras inadequadas e diferentes das quais ele está acostumado a treinar. Conforme citado por Capello apud ABENHAIN et al. (2000) em uma pesquisa realizada com bombeiros e pessoas comuns, pessoas adaptadas a exercícios de alto-impacto têm menor tendência a ter lombalgias por terem força isométrica e resistência maiores que o normal, além de flexibilidade mais bem trabalhada, ao contrário de pessoas acostumadas a impactos menores. Este fato explica as lombalgias apresentadas pelos atletas que costumam treinar em quadras fofas em praias e que durante o Circuito deparam-se com quadras montadas sobre gramados e superfícies asfálticas em etapas realizadas em cidades longe do litoral.

As lesões de ombro, geralmente no tendão do supraespinhoso, têm justificativa, segundo TEITZ, et al. (1997), no desalinhamento articular causado pelo desequilíbrio de forças entre rotadores externos, mais fracos e pouco trabalhados, e os rotadores internos, fortes e bem trabalhados. Esse desequilíbrio causa uma anteriorização e superiorização do úmero dentro da glenoumeral. Na hora de um ataque, onde há uma explosão de força dos rotadores internos, os rotadores externos realizam uma contração excêntrica para a desaceleração final do ataque, o que provoca um stress tênsil nos tendões do manguito rotador, que com o uso repetitivo acaba sendo acometido.

Também foi observado um pequeno número de lesões agudas nesta pesquisa (Uma contratura de Tríceps Sural, um estiramento de Isquiotibiais, uma entorse de tornozelo e uma fratura de falange proximal do dedo mínimo), perfeitamente explicável por alguns fatores. As entorses de tornozelos tão vistas em pesquisas realizadas com voleibol de quadra, tem incidência bastante reduzida na nossa pesquisa com apenas 1 caso reportado. Isso se dá provavelmente pela pouca resistência mecânica oferecida pelo solo à inversão do pé, mecanismo este mais comum deste tipo de lesão, além disso, outro fator importante é o pequeno número de atletas na quadra, o que diminui o risco de choques entre eles. Já as lesões de ordem muscular como as contraturas e os estiramentos, aparecem como as principais lesões agudas dentro do voleibol de praia. Isso talvez se deva ao treino inadequado de flexibilidade dos atletas, pois embora dados também da nossa pesquisa mostrem que quase 100% dos atletas realiza um trabalho de alongamento no pré-jogo, poucos tem supervisão sobre estes alongamentos. O mecanismo preponderante nas lesões agudas mostradas na nossa pesquisa é o deslocamento na quadra, isso se deve principalmente às irregularidades da quadra de areia.

Outros dados obtidos na nossa pesquisa retratam uma realidade dentro do voleibol de praia. Devido a falta de supervisão (poucos atletas têm uma comissão técnica que acompanhe-os durante o circuito) os atletas deixam de realizar, ou realizam de forma indevida algumas medidas preventivas importantíssimas para a manutenção da melhor forma física 100% do atleta. No pré-jogo ACHOUR (1998), recomenda uma atividade de flexionamento para o melhor condicionamento muscular e menor risco de lesões nas atividades de alto-impacto. Neste estudo, 93,7% dos atletas realizam o alongamento, porém o que se observa é a ausência de supervisão nestas atividades. Já no pós-jogo CANAVAN (2001) afirma que, os exercícios de baixo-impacto, se realizados, são os maiores responsáveis pela eliminação de boa parte dos resíduos provenientes da contração muscular como creatinase e ácido lático, por exemplo. Esses exercícios associados aos alongamentos leves, sem atingir a amplitude máxima forçada, para o estímulo muscular à volta ao seu comprimento normal, são as melhores medidas a serem tomadas no pós-atividade de alto-impacto. O que observou-se também é que apenas 13% dos atletas realiza exercícios de baixo-impacto no pós-jogo, isso se dá a total falta de conhecimento de métodos preventivos dos atletas. Finalizando, 38% dos atletas faz apenas repouso no pós-jogo imediato. Essa atitude segundo DANTAS (1995), mantém todos os resíduos provenientes da atividade muscular presentes, os quais provocam dores musculares, bem como, mantém o músculo sob-tensão em comprimento diminuído, o que propicia a formação de processos lesivos como contraturas lombares crônicas.

Outra medida preventiva para, principalmente, evitar recidivas de lesões, ou evitar a formação de lesões crônicas é a crioterapia. Esta segundo RODRIGUES (1995), reduz o metabolismo local e diminui a chance da criação de processos inflamatórios nas articulações bem como, diminui a necessidade de nutrição das áreas anteriormente lesionadas, o que diminui as chances de recidivas.

Nossa pesquisa aferiu que 75%, ou seja, a maioria absoluta dos atletas realiza a crioterapia no pós-jogo, sendo que grande parte dos atletas realiza para evitar a progressão de qualquer dor articular. Esse tipo de atitude diminui a chance de qualquer tipo de recidiva bem como o aparecimento de novas lesões, o que mostra um certo "conhecimento preventivo" por parte dos atletas.

A Fisioterapia foi a modalidade de tratamento mais citada pelos atletas para resolução destas lesões, com 14 citações, seguida pelo tratamento clínico com 9 e pela Quiropraxia, também modalidade fisioterapêutica, com 1 citação. Esse número alto de procura da Fisioterapia só aumenta a necessidade de um profissional fisioterapeuta que acompanhe o Circuito para melhor suporte aos atletas. Por outro lado observou-se que 7 atletas não realizaram tipo algum de tratamento, o que aumenta a chance de recidivas e faz com que a lesão se torne crônica, e acompanhe o atleta por muito mais tempo do que o normal.

CONCLUSÕES

Depois de todos os dados apresentados e discutidos algumas conclusões podem ser tiradas desta pesquisa.

A primeira grande conclusão que tiramos desta pesquisa, é que a incidência de lesões dentro do voleibol de praia de alto-nível é bastante grande como a de qualquer outro esporte de competição.

O índice de lesões crônicas, ou insidiosas, envolvendo principalmente joelho, região lombar e ombro respectivamente, é muito maior dentro do voleibol de praia, do que o índice de lesões agudas. Esse alto número de lesões crônicas está intimamente ligado com a presença de quadras inadequadas para a prática do voleibol dentro do Circuito. Os pisos rígidos são altamente lesivos a atletas que estão acostumados a treinar e jogar em pisos suaves. Outro fator importante é o uso repetitivo, pois os atletas de voleibol de praia às vezes chegam a jogar 5 partidas por dia, um número elevado para qualquer tipo de esporte.

Já, o número baixo de lesões agudas está provavelmente ligado à menor resistência do solo aos impactos, principalmente quando se fala em entorse de tornozelo a lesão aguda com maior incidência dentro do voleibol de quadra em todas as pesquisas relacionadas anteriormente. Outro fator a ser considerado é a diminuição do número atletas dentro da quadra, o que reduz o risco de choque entre eles.

Quanto às medidas preventivas, observamos que quase que 93,7% dos atletas realizam o alongamento antes das partidas como uma forma de se preparar para o jogo e evitar o risco de lesão. Isso, provavelmente, predispõe ao baixo índice de lesões agudas musculares dentro do índice geral de lesões. Por outro lado, esse tipo de lesão aparece como 50% de todas as lesões agudas o que leva a crer que a falta de supervisão nestes alongamentos poderia ser um fator etiológico importante.

Por outro lado no pós-jogo, poucos atletas preocupam-se em prevenir-se de lesões, sendo que boa parte apenas repousa, o que favorece o aparecimento de lesões crônicas principalmente na região lombar, e de dores musculares relacionadas com a presença de resíduos da atividade muscular contínua de alto-impacto.

Dentro da crioterapia no pós-jogo, a maioria dos atletas realiza e têm consciência dos seus efeitos preventivos, o que ajuda na diminuição da recidiva de lesões antigas e no aparecimento de novas lesões.

E por último, porém não menos importante, verificamos que a modalidade de tratamento mais procurada pelos atletas para tratar-se foi à fisioterapia, o que mostra a importância deste profissional dentro deste esporte de alto-nível.

Dr. Fábio Sprada de Menezes, Fisioterapeuta graduado na Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC

COMENTE ESSE POST

Compartilhe no Google +

0 comentários: